segunda-feira, 9 de julho de 2007

"NO MEIO É QUE ESTÁ A VIRTUDE"



Porque me foi dada a mercê de ver como se movimentam as CENTRÚRIDAS e quiçá compreender o que nos impingem no seu blá-blá bafiento os educadores do costume, eis-me finalmente realizado por entender o que é o CENTRÃO!


Aos Tugas , educados para a aceitação da desdita, humildade de raciocínio e uso e abuso dos brandos costumes só uma doutrina que os fizesse abdicar da sua condição de homens livres estaria destinada ao sucesso eleitoral. Se apenas uma CENTRÚRIDA tomasse para si a excelsa tarefa, fácilmente se transformaria em partido único o que, à luz da tão apregoada democracia paralamentar não seria de bom tom. Assim, para a resolução de tal desiderato, alguém se lembrou de baptizar com nomes diferentes uma mesma solução(em termos informáticos tal nunca viria acontecer, uma vez que sempre que pretendemos guardar um ficheiro, é-nos perguntado se pretendemos substituir um já existente) desta feita chegamos ao CENTRÃO. Nós, os periféricos, sentimo-nos sós, de tal forma que me ocorre trazer à memória aquele que já no século XIX antecipava as malfeitorias do CENTRÃO:

CENTRÚRIDAS, s.m. pl.(lat.cient. centruridae. Família de Escorpiões.





Em certo Reino, à esquina do Planeta,


Onde nasceram meus Avós, meus Pais,


Há quatro lustros, viu a luz um poeta


Que melhor fora não a ver jamais.





Mal despontava para a vida inquieta,


Logo ao nascer, mataram-lhe os ideais,


À falsa fé, numa traição abjecta,


Como os bandidos nas estradas reais!





E,embora eu seja um descendente, um ramo


Dessa àrvore de Heróis que, entre perigos


E guerras, se esforçaram pelo Ideal:





Nada me importas, País! seja meu Amo


O Carlos ou o Zé da T'resa... Amigos,


Que desgraça nascer em Portugal!





Do Livro SÓ


António Nobre


1889

segunda-feira, 2 de julho de 2007

"SOB O MANTO DIÁFANO DA FANTASIA A NUDEZ CRUA DA VERDADE"











Ao chamamento da CAPITAL,onde pululam as velhas e NOVAS OPORTUNIDADES, acorrem dos mais recônditos lugares doportugalprofundo os "apátridas"do costume. Fazem pela vida!
Substituíram-se à gesta de quinhentos. Não vêm à procura de pimenta, sedas ou ouro. Mas trazem o odre pleno de filiações partidárias, recomendações e participações em comunhões de fé e depois, é vê-los impantes e supostamente bem falantes a prometerem um mundo novo . Para tão desmesurada desfaçatez só me ocorre citar António Aleixo:


Vem da serra um infeliz

vender sêmea por farinha;

passado tempo já diz:

- esta rua é toda minha.


Tu não tens valor nenhum,

andas debaixo dos pés,

até que apareça algum

doutor que nos diga quem és.


Se fazes tudo às avessas,

Para que prometes tanto?

Não me faças mais promessas,

bem sabes que não sou santo.



Lembram-se daqueloutro que da Província entende ser feita a captura das boas consciências?




Dizia Aleixo:





Deixam-me sempre confuso

as tuas palavras boas,

por não te ver fazer uso

dessa moral que apregoas.


Não és, mas queres parecer

um santinho no altar;

mostras ao mundo,sem querer,

o que pretendes tapar.


Co'o mundo pouco te importas

porque julgas ver direito.

Como há-de ver coisas tortas

quem só vê em seu proveito?


Inteligências há poucas.

Quase sempre as violências

nascem das cabeças ocas,

por medo às inteligências.


Poisa sobre qualquer coisa

um parasita, a brincar;

se o não matam, quando poisa,

já pode ele então matar.


O rato mete o focinho

sem pensar que faz asneira;

depois, ou larga o toucinho,

ou fica na ratoeira.


Fazem a mesma figura

homens que vestem bons fatos;

quando lhes cheira a gordura,

caem também como os ratos.


A vida na grande terra

corrompe a humanidade.

Entre a cidade e a serra

prefiro a serra à cidade


Os novos que se envaidecem

p'lo muito que querem ser

são frutos bons que apodrecem

mal começam a nascer.

Ainda não reparaste

que és tal qual um cão na palha?

Tu, que nunca trabalhaste,

censuras quem não trabalha!


Mas que inteligência rara!

E julgas-te uma competência!

Nem sei como tu tens cara

p'ra ter tanta inteligência!

Voltarei mais tarde com Aleixo ou outros que os saibam descrever melhor do que eu.