Como uma desgraça nunca anda só!
Juntamo-nos.
Mastigamos a prosa dos outros sem nunca abdicarmos da que nos é própria!
Fizemos juntos o que a cada um pertencia por inteiro.
E quando insatisfeitos com o trabalho produzido,
Engravidámos responsabilidades
Que o ventre de cada um era chamado a gerar!
Largamos as ideias, como quem larga filhos na roda!
Encontrámo-las hoje, adultas, indiferentes,
Quão indiferente foi a sua paternidade!
Dizem-nos que os efeitos,
São o produto das causas!
Paradoxalmente os efeitos,
São os nossos propósitos
E as causas somos nós!
Como é possível aquecermos os outros
E mantermo-nos indefinidamente frios,
Como catedrais aquecendo a alma dos crentes
E vestindo sempre as gélidas roupagens de granito.
Não me atreveria a reflectir em nós tamanha monumentalidade!
Porém que dizer, quando nos comparamos com a microscópica imagem dos que nos cercam!
Quando digo cercam, faço-lo porque me sinto incomodado,
Tal como incomodado se sente o elefante rodeado de pulgas.
Nascemos para viver?
Acho que não.
Vivemos para concluir como e para que haveríamos de nascer!
Ao teu espírito volátil,
Tenho emprestado o elemento vivificador da chama que arde em ti!
E eu, como a videira a quem religiosamente pelo Inverno cortam as cepas,
Disponho-me a dar na colheita seguinte, mais e melhor.
Sou quando sou,
O néctar que, galopando na tua alma, te faz rir e zombar dos deuses do olimpo.
Elevamos ao êxtase o sublimado das nossas reflexões.
E aí quando já nada nem ninguém nos acompanha,
Sentamo-nos nas asas do vento e vamos ao encontro da nossa autenticidade.
Não é isto que sentimos quando olhamos o mundo a partir dos píncaros
Das montanhas durienses?
Sentes ou não vontade
De deixar correr sobre a toalha líquida do Douro
Pedaços de ti?
E quão maravilhoso seria reagrupares-te de novo
à entrada do oceano!
Encontares a Atlântida e recomeçares outra vêz.
Sabes como eu ,que é necessário falar de alguém
Ou a alguém,
Quando pretendemos falar com nós próprios.
Espero que esta prosa te dê essa possibilidade.
Sinto que a dureza e agressividade
Que a cada passo põem à minha volta
Me fazem mal!
Obrigaram-me desde cedo a deixar de ser criança.
E, quando homem , castigaram-me por ser poeta!
Para mim só existem duas formas de viver a vida,
Brincando e amando!
Não suporto a mecanização da alma e
A prosa tecnocrática!
Acho que um homem que não recorda com alegria as suas meninices
Tem no peito uma pedra
E na cabeça argamassa!
Assim como não aceito
Deixar de ver em cada novo dia,
Um hino à vida,à luz, à cor,ao sol, à água,
Aos meus filhos!
Vivemos rodeados de sombras.
Só sabemos que existimos porque nos beliscamos.
E imagino quanto sofrimento
Vai naquele que não encontra na vida inteira,
A sua complementaridade.
Alguém com quem partilhar
A razão da sua existência.
Saudades sinto das sinfonias de azul
Ouvidas em terras transmontanas.
Mas acredito que é esta esperança
De renascer a cada dia e a cada ano
Que me faz sentir, apesar de gasto, usado, cansado,
Violentado, agredido e expoliado,
O menino de outrora.
Olhar vivo,
Cabelos ao vento,
Sedento de curiosidade.
O coração numa mão na outra a alma.
Empurraram-me o coração para o fundo do peito.
Jogaram salpicadelas de ácido
Sobre o meu espírito.
Até à consumação existencial
Darei por arte ou por engenho um pouco de mim.
Que imodéstia dirão.
Porque não falar de mim falando de ti ou vice-versa.
E ao fazê-lo, deixar claro quem sou e quanto valho,
Porque ao fazê-lo ninguém nos questiona.
Ninguém arrisca a ser a bitola pela qual o outro se mediu!
Que mais repugnará?
A afirmação do valor pela sobranceria
Ou o rastejar pegajoso à procura dum nivelamento
Que não existe?
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