quarta-feira, 11 de agosto de 2010

PROSA POÉTICA


Como uma desgraça nunca anda só!

Juntamo-nos.

Mastigamos a prosa dos outros sem nunca abdicarmos da que nos é própria!

Fizemos juntos o que a cada um pertencia por inteiro.

E quando insatisfeitos com o trabalho produzido,

Engravidámos responsabilidades

Que o ventre de cada um era chamado a gerar!

Largamos as ideias, como quem larga filhos na roda!

Encontrámo-las hoje, adultas, indiferentes,

Quão indiferente foi a sua paternidade!

Dizem-nos que os efeitos,

São o produto das causas!

Paradoxalmente os efeitos,

São os nossos propósitos

E as causas somos nós!

Como é possível aquecermos os outros

E mantermo-nos indefinidamente frios,

Como catedrais aquecendo a alma dos crentes

E vestindo sempre as gélidas roupagens de granito.

Não me atreveria a reflectir em nós tamanha monumentalidade!

Porém que dizer, quando nos comparamos com a microscópica imagem dos que nos cercam!

Quando digo cercam, faço-lo porque me sinto incomodado,

Tal como incomodado se sente o elefante rodeado de pulgas.

Nascemos para viver?

Acho que não.

Vivemos para concluir como e para que haveríamos de nascer!

Ao teu espírito volátil,

Tenho emprestado o elemento vivificador da chama que arde em ti!

E eu, como a videira a quem religiosamente pelo Inverno cortam as cepas,

Disponho-me a dar na colheita seguinte, mais e melhor.

Sou quando sou,

O néctar que, galopando na tua alma, te faz rir e zombar dos deuses do olimpo.

Elevamos ao êxtase o sublimado das nossas reflexões.

E aí quando já nada nem ninguém nos acompanha,

Sentamo-nos nas asas do vento e vamos ao encontro da nossa autenticidade.

Não é isto que sentimos quando olhamos o mundo a partir dos píncaros

Das montanhas durienses?

Sentes ou não vontade

De deixar correr sobre a toalha líquida do Douro

Pedaços de ti?

E quão maravilhoso seria reagrupares-te de novo

à entrada do oceano!

Encontares a Atlântida e recomeçares outra vêz.

Sabes como eu ,que é necessário falar de alguém

Ou a alguém,

Quando pretendemos falar com nós próprios.

Espero que esta prosa te dê essa possibilidade.

Sinto que a dureza e agressividade

Que a cada passo põem à minha volta

Me fazem mal!

Obrigaram-me desde cedo a deixar de ser criança.

E, quando homem , castigaram-me por ser poeta!

Para mim só existem duas formas de viver a vida,

Brincando e amando!

Não suporto a mecanização da alma e

A prosa tecnocrática!

Acho que um homem que não recorda com alegria as suas meninices

Tem no peito uma pedra

E na cabeça argamassa!

Assim como não aceito

Deixar de ver em cada novo dia,

Um hino à vida,à luz, à cor,ao sol, à água,

Aos meus filhos!

Vivemos rodeados de sombras.

Só sabemos que existimos porque nos beliscamos.

E imagino quanto sofrimento

Vai naquele que não encontra na vida inteira,

A sua complementaridade.

Alguém com quem partilhar

A razão da sua existência.

Saudades sinto das sinfonias de azul

Ouvidas em terras transmontanas.

Mas acredito que é esta esperança

De renascer a cada dia e a cada ano

Que me faz sentir, apesar de gasto, usado, cansado,

Violentado, agredido e expoliado,

O menino de outrora.

Olhar vivo,

Cabelos ao vento,

Sedento de curiosidade.

O coração numa mão na outra a alma.

Empurraram-me o coração para o fundo do peito.

Jogaram salpicadelas de ácido

Sobre o meu espírito.

Até à consumação existencial

Darei por arte ou por engenho um pouco de mim.

Que imodéstia dirão.

Porque não falar de mim falando de ti ou vice-versa.

E ao fazê-lo, deixar claro quem sou e quanto valho,

Porque ao fazê-lo ninguém nos questiona.

Ninguém arrisca a ser a bitola pela qual o outro se mediu!

Que mais repugnará?

A afirmação do valor pela sobranceria

Ou o rastejar pegajoso à procura dum nivelamento

Que não existe?