
No imo dos anos sessenta,na exuberância dos meus vinte anos, prenhe de sonhos e expectativas, buscando auroras de felicidade em cada manhã, quantas vezes dei por mim viajando no "vadio" a caminho de casa, concluída que foi a aventura desenhada para aquele dia ou noite.
"VADIO", nome usado para identificar o derradeiro eléctrico que nesta ou naquela linha dava por finda a missão de transportar as gentes desta cidade.
"VADIO", nome usado para identificar o derradeiro eléctrico que nesta ou naquela linha dava por finda a missão de transportar as gentes desta cidade.
Foi viajando de ELÉCTRICO que cresci. Concluída com sucesso a 4ª Classe aos dez anos, seguiu-se a recompensa esperada. Passados oito dias fui trabalhar.Numa oficina de sapateiro, num atelier de Alfaiataria, num escritório de Advogado eu sei lá!Vida dura, alegre e sã, sem traumas ou sentimentos de ausência de meninice.
Com tal idade que tarefas poderia eu desempenhar? Fazer recados, isto é, levantar encomenda aqui, fazer entrega ali, pequenas compras etc.. Numa cidade grande como conseguir vencer as distâncias e encurtar os tempos? Viajar de ELÉCTRICO.
No 1 , 5 , 16 ,18 e 19 para Matosinhos, no 2 e 17 para a Foz, no 3 para Pereiró, no 4 para Lordelo , no 6 para o Monte dos Burgos, no 7 para o Amial, no 8 para Paranhos, no 9 para Ermesinde, no 10 para Rio Tinto, no 11 para Campanhã, no 12 para Gondomar, no 13 para Santo Ovídio, no 14 para Coimbrões, no 15 para Silva Tapada, no 20 e 21 para a Constituição. Conhecia-os como ninguém.
Viajava muitas vezes junto do Guarda-Freio. Que prazer sentia quando de Alavanca nas mãos, descia , mudava a agulha e lhe corrigia o destino.
Como são determinantes no crescimento e formação do carácter estas vivências. Ainda me lembro dos vários códigos de conduta dos utentes. O cavalheiro que gentilmente cedia o seu lugar a uma senhora, a uma criança a um velho. O outro que garbosamente exibia de forma ostensiva a sua Assinatura Anual, abrindo de forma despudorada a luzidia carteira, produzida com o melhor calfe.
O Condutor (o Pica), que ora pedia para os senhores passageiros chegarem à frente, como a seguir de alicate em riste afastava um temerário pendura. E não esquecerei nunca a recomendação escrita nas partes superiores do interior do Eléctrico que rezava assim: " Senhor Passageiro se alguma janela aberta o incomoda peça ao Condutor que a feche"
Não me ocorre outro meio de transporte ou local na época que juntasse em tão pouco espaço, ricos, remediados, pobres, analfabetos, intelectuais, comerciantes, operários, polícias, soldados, carteiristas, padres e outros que não me ocorre citar. A tudo isto assisti. O recente regresso dos Eléctricos à Baixa remexeu o meu baú de memórias e a emoção fez o resto.