
Quando a minha primeira descendência me ofertou um livro em branco no Natal de 99,dentre a conflitualidade das prendas, inevitávelmente situadas entre pijamas e "lingerie" masculina,dei por mim a pensar o que nele escrever.
MEMÓRIAS? EXPERIÊNCIAS?EMOÇÕES?
Vivendo cada dia como do primeiro se tratasse, já que não consigo antever como viverei o último, guardo das minhas memórias a relação com os meus Pais.
Do meu progenitor recebi ensinamentos de apego à cultura. Ler, Conhecer,desenvolver empatias com o que nos rodeia. Ter uma visão universalista dos Povos. Saber fruir e amar a cidade onde nasci.
Com ele aprendi a ter um ideal. A formar opinião e a bater-me por ela.
Tarefa hercúlea para quem vive rodeado de frenesim consumista, informação tablóide e manipulação. Aprendi assim a separar o trigo do joio. A considerar o conteúdo em detrimento da embalagem. "É por dentro das coisas que as coisas são!".
Satírico, Mordaz e de Humor inteligente recordo de meu pai o modo como sempre reagia à adversidade. Não sei se jogava aí esses atributos, ou se tal ousadia se devia ao facto de permanentemente ter convivido com ela. Eram velhos conhecidos.
Deixou-me como herança a maior de todas as riquezas. Não a tomei à data da sua morte. Foi-ma entregando aos poucos, passo a passo, desde a infância. Ensinou-me a usar as mãos para criar. Transformar matéria em objectos. Aos objectos conferir-lhes a forma. Ter satisfação até ao último gesto e descansar depois.
De tal jeito o fez que do conjunto das suas atitudes acabei eu por fazer profissão. Aquilo que meu Pai me foi dando, passei eu a "vender" ao longo da minha vida.
Como se nada disto bastasse tudo o resto veio de minha Mãe.